A Bull, startup brasileira de soluções de crédito, analisou os contratos de empréstimo consignado para trabalhadores com carteira assinada firmados em sua plataforma nos 12 meses encerrados em junho de 2026. O levantamento indica quem mais recorre à modalidade, como cada faixa etária utiliza o dinheiro e quais setores concentram as operações, num período marcado pela implementação do Crédito do Trabalhador (mar/2025) e pela criação do teto de juros (abr/2026).
Crédito consignado CLT: estudo detalha idade, valor e setores dos tomadores
Idade média de 37 anos, mas comportamento varia por geração
O tomador típico de consignado CLT registrado pela Bull tem 37 anos. Jovens de 18 a 34 anos representam 42,4% dos contratos, enquanto a faixa isolada de 35 a 44 responde por 32,7%. Apesar da participação expressiva, a presença de pessoas até 34 anos não avançou de forma consistente: a fatia oscilou entre 38% e 50% ao longo do período avaliado, tocando o piso de 25% em maio de 2026, logo após a entrada em vigor do teto de juros definido pela Resolução CGCONSIG nº 2/2026.
Valores e prazos contratados revelam diferenças relevantes entre gerações. Entre 18 e 24 anos, o ticket médio ficou em R$ 1.661, quase metade do observado na faixa de 45 a 54 anos, que atinge R$ 3.303. Já para trabalhadores com 55 anos ou mais, o valor médio sobe a R$ 3.452.
Comprometimento de renda cresce conforme a idade
Além do montante, o comprometimento salarial também muda conforme o avanço da carreira. Para os mais jovens, o valor contratado equivale a 23%-27% de um salário mensal, em prazos de cerca de 12 meses. Acima dos 45 anos, a fatia da renda comprometida sobe para 33%-38%, com contratos que variam de 18 a 24 meses. O padrão indica que quem está no início do mercado de trabalho prefere dívidas menores e de curto prazo, enquanto profissionais mais maduros aceitam parcelas maiores e alongam o pagamento.
Tempo de casa reforça tendência de curto prazo entre jovens
O estudo destaca que 55,3% dos tomadores estão há menos de três anos na empresa atual — e 19,8% completaram menos de 12 meses. O índice chega a 87% no grupo de 18 a 24 anos, sinalizando correlação entre estabilidade no trabalho e disposição para assumir prazos mais longos.
Varejo lidera contratações; funções operacionais concentram 56%
Na divisão por setores, varejo e comércio respondem por 22,9% dos contratos, seguidos pela indústria (19%) e por serviços administrativos e de terceirização (15,4%). Juntos, esses três segmentos somam 57,3% das operações. A distribuição por geração acompanha o setor em que o trabalhador atua: Geração Z aparece com maior presença em varejo, alojamento e alimentação, enquanto Geração X se destaca em terceirização e transporte. Os Millennials concentram 53,8% de todos os contratos.
Quanto ao nível hierárquico, 56,3% dos acordos envolvem funções operacionais. Se somadas as posições técnicas, o índice alcança 84,9% da carteira. Mesmo em cargos de gestão, o ticket médio sobe pouco, de aproximadamente R$ 1.500 em funções básicas para R$ 2.350 em postos de chefia, reforçando o caráter de produto voltado à base salarial.
Motivações: emergência financeira e quitação de dívidas dominam
Embora o banco de dados da Bull se concentre em comportamento de contratação, pesquisas de mercado citadas no relatório apontam emergência financeira (27%) e quitação de dívidas (25%) como principais razões para recorrer ao consignado. Juntas, essas motivações explicam mais da metade dos casos observados no mercado.
Teto de juros derruba concessões em maio de 2026
O período analisado coincidiu com mudanças regulatórias relevantes. Entre março de 2025 e janeiro de 2026, o Crédito do Trabalhador superou R$ 101 bilhões em operações, alcançando cerca de 8,5 milhões de trabalhadores CLT, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego. A partir de abril de 2026, entrou em vigor o teto de juros para o segmento, medida que levou a uma retração de 22,8% nas concessões no mês seguinte, segundo dados do Banco Central.
Impacto financeiro: custo de oportunidade para empresas e trabalhadores
Do ponto de vista corporativo, o recuo de 22,8% nas concessões após o teto de juros sinaliza menor pressão de endividamento sobre a folha de pagamento, mas também reduz o acesso rápido ao capital de giro individual que o consignado oferece. Para o trabalhador jovem, que historicamente contrata valores de até 27% de sua remuneração, o cenário de juros menores pode representar oportunidade de reorganização financeira em prazos curtos. Já para as faixas etárias acima de 45 anos, habituadas a comprometer até 38% do salário por até dois anos, a limitação de oferta amplia o custo de oportunidade: sem o consignado, resta buscar crédito pessoal tradicional, geralmente mais caro. Em ambas as pontas, a análise da Bull mostra que o consignado permanece relevante para conter emergências e consolidar dívidas, mas as mudanças regulatórias exigem planejamento mais criterioso de empresas e empregados.
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