Quase metade dos empresários brasileiros ainda não reconhece o crédito consignado privado como benefício aos colaboradores, mesmo após o estoque da modalidade atingir R$ 101,6 bilhões em março de 2024, conforme dados do Banco Central. A constatação vem de pesquisa da Serasa Experian feita com mais de 550 organizações e expõe um desalinhamento entre o avanço desse tipo de financiamento e a preparação de gestores para operacionalizá-lo.
Crescimento acelerado contrasta com desconhecimento empresarial
O relatório da Serasa Experian revela que 45% dos entrevistados não associam o consignado privado a uma ferramenta operacional vantajosa. O dado surpreende diante do salto de 142,4% no saldo da modalidade em apenas 12 meses — de R$ 41,9 bilhões em março de 2023 para R$ 101,6 bilhões no mesmo mês de 2024, segundo o Banco Central do Brasil.
Parte desse avanço decorre do programa Crédito do Trabalhador. Entre abril de 2023 e março de 2024, as concessões somaram R$ 76,2 bilhões, alta de 276%. Somente em março de 2024 foram liberados R$ 10,9 bilhões, recorde mensal da série histórica.
Como funciona o consignado privado na prática
No modelo vigente, o consignado privado é um direito do trabalhador formal. As parcelas são descontadas automaticamente da folha de pagamento e repassadas ao banco, sem que a empresa financie o valor.
Desde a regulamentação publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em março de 2024, as organizações precisam:
- Baixar contratos no Portal Emprega Brasil;
- Registrar cada desconto no eSocial com rubrica específica;
- Respeitar o limite legal de 35% da remuneração disponível;
- Efetuar o repasse à instituição financeira até o dia 20 do mês subsequente.
Falhas nessas etapas podem gerar inconsistências em folha, passivos trabalhistas e riscos jurídicos, alertam especialistas citados no estudo.
Benefícios para trabalhadores e empresas
Para o funcionário, o consignado privado significa acesso a crédito com taxas inferiores às de cartão de crédito ou cheque especial, graças ao baixo risco de inadimplência. Para a companhia, a estruturação correta do processo reduz custos indiretos, evita retrabalho no departamento pessoal e contribui para a saúde financeira do colaborador, fator que impacta engajamento e retenção de talentos.
Por que 45% das empresas ainda não aderiram?
O levantamento indica que a principal barreira é a falta de informação. Muitos gestores associam o produto a obrigações financeiras adicionais ou a uma rotina operacional complexa. Na prática, porém, trata-se de um fluxo digital já integrado a sistemas como eSocial e DET, bastando adequações mínimas no RH.
Outro ponto é a comparação equivocada com benefícios tradicionais, como vale-refeição ou plano de saúde. Diferentemente desses incentivos, o consignado privado não gera custo direto, pois a empresa só operacionaliza o desconto autorizado pelo colaborador, sem desembolso próprio.
Análise: custo de oportunidade do desconhecimento
Ignorar o consignado privado significa abrir mão de uma vantagem competitiva que não exige investimento financeiro da empresa. Ao recusar ou atrasar a implementação, o empregador:
- Perde a chance de contribuir para a redução do endividamento dos colaboradores, o que pode refletir em menor produtividade e maior rotatividade;
- Assume risco reputacional por não oferecer um direito já consolidado em lei;
- Gasta mais tempo e recursos para corrigir falhas posteriores, caso o processo seja implantado de forma emergencial após pressão interna ou sindical.
Em um cenário de crédito caro no mercado tradicional, permitir acesso a taxas reduzidas via consignado fortalece o vínculo empregador-empregado, sem impacto no fluxo de caixa da empresa. Assim, o desconhecimento apontado pela pesquisa representa não apenas um hiato de informação, mas um custo de oportunidade que pode comprometer a competitividade das organizações.
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