A forte emissão de títulos atrelados à Selic levou a Dívida Pública Federal a subir 2,66 % em junho, alcançando R$ 9,033 trilhões, segundo boletim do Tesouro Nacional divulgado em 29 de julho de 2026. O valor, que já supera a marca de R$ 9,2 trilhões, mantém o estoque abaixo do intervalo projetado no Plano Anual de Financiamento (PAF) para 2026. A escalada veio acompanhada de um reforço no colchão de liquidez, que atingiu o maior nível desde 2015.
Emissões ligadas à Selic impulsionam aumento
Somente no mês passado, o Tesouro emitiu R$ 149,49 bilhões em títulos da Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi), sendo R$ 102,57 bilhões indexados à Taxa Selic. Como os resgates somaram modestos R$ 6,14 bilhões, o saldo líquido adicionou R$ 143,35 bilhões ao estoque. A pressão foi reforçada pela apropriação de R$ 85,16 bilhões em juros — procedimento que incorpora mensalmente a correção monetária aos papéis em circulação, hoje remunerados por uma Selic de 14,25 % ao ano.
O volume de papéis vinculados à Selic dentro da estrutura da dívida passou de 48,99 % para 49,32 % entre maio e junho. Já a fatia de títulos corrigidos pela inflação recuou para 25,9 %, enquanto os prefixados oscilaram marginalmente para 21,04 %. Os papéis atrelados ao câmbio permaneceram próximos de 3,74 % do total.
De acordo com o Tesouro Nacional, esses números continuam dentro das bandas definidas no PAF, que projeta, até o fim do ano, intervalo de 46 % a 50 % para títulos ligados à Selic e de 23 % a 27 % para os indexados ao IPCA.
Reserva financeira atinge recorde histórico
O chamado “colchão” — reserva destinada a enfrentar picos de vencimentos — cresceu de R$ 1,211 trilhão para R$ 1,346 trilhão, maior patamar desde o início da série histórica em 2015. O montante cobre 8,33 meses de compromissos, enquanto o Tesouro projeta R$ 1,86 trilhão em vencimentos nos próximos 12 meses. O reforço foi viabilizado pela diferença positiva entre emissões e resgates, estratégia que oferece maior margem de manobra em cenários de volatilidade.
Perfil dos investidores sofre leve ajuste
Entre os detentores da DPMFi, as instituições financeiras permanecem com a maior participação (31,76 %), seguidas por fundos de pensão (22,52 %) e fundos de investimento (22 %). A parcela dos investidores estrangeiros caiu de 10,14 % para 9,95 % em meio à tensão gerada pelos conflitos no Oriente Médio. Quanto maior a presença de não residentes, maior costuma ser a percepção de confiança na economia brasileira, mas o recuo ainda é considerado pontual pelo Tesouro.
Prazo médio volta a encurtar
O prazo médio para rolagem da dívida caiu de 4,07 para 4,01 anos. Em períodos de incerteza, janelas mais curtas sugerem maior cautela dos investidores na oferta de recursos de longo prazo, o que pode elevar o custo de financiamento do governo.
Projeções do PAF continuam preservadas
Mesmo com o salto observado em junho, o estoque total segue abaixo dos R$ 9,7 trilhões a R$ 10,3 trilhões previstos pelo PAF para o encerramento de 2026. Segundo o Tesouro, a estratégia segue apoiada em emissões majoritariamente em mercado doméstico, com manutenção de uma estrutura equilibrada entre prefixados, indexados à inflação e papéis flutuantes.
O que o aumento da dívida indica para o custo do Tesouro
À luz dos dados divulgados, a maior exposição aos títulos pós-fixados — quase metade do estoque — oferece flexibilidade no curto prazo, pois a procura pelos papéis cresce em ambiente de juros altos. Contudo, a dependência da Selic cria um efeito de retroalimentação: quanto mais demorada a trajetória de queda da taxa, maior a apropriação de juros e, por consequência, o volume do endividamento. Esse quadro pressiona o Tesouro a buscar equilíbrio entre prazos mais longos, que trazem previsibilidade de fluxo de caixa, e a manutenção de custos sob controle, já que emissões prefixadas exigem prêmios elevados quando o mercado antevê riscos adicionais.
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