Durigan assume Fazenda sob pressão e revê meta fiscal quinze dias após tomar posse, diante de contas públicas apertadas, bloqueio orçamentário e cobranças por medidas que aliviem o bolso do eleitor em 2026.
Bloqueio inicial de R$ 1,6 bilhão para cumprir o arcabouço
Brasília, 5 de abril de 2026 — A primeira decisão de Dario Durigan à frente do Ministério da Fazenda foi contingenciar R$ 1,6 bilhão do Orçamento de 2026. O corte busca acomodar o avanço das despesas obrigatórias dentro do novo arcabouço fiscal, que limita o crescimento real dos gastos a 2,5% acima da inflação. Apesar da sinalização de austeridade, analistas consideram o valor pequeno diante do déficit primário já projetado pelo próprio governo: R$ 59,8 bilhões, quando se incluem precatórios e itens fora do teto.
Oficialmente, a equipe econômica ainda trabalha com superávit de R$ 3,5 bilhões, mas o mercado enxerga o número como irrealista sem ajustes adicionais. Para especialistas, o bloqueio acena à responsabilidade, porém não resolve o estrangulamento que pressiona a dívida pública, hoje em 78,7% do PIB.
Subsídio ao diesel busca segurar alta de combustíveis
Paralelamente ao corte, o ministro confirmou a edição iminente de uma medida provisória que criará subsídio de R$ 1,20 por litro para o diesel importado. O custo estimado é de R$ 3 bilhões, dividido entre União e estados. A iniciativa, esperada para esta semana, foi adiada até o retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de viagens pelo país.
O objetivo é amortecer o impacto da elevação do petróleo no mercado internacional e evitar novo repique nos preços dos combustíveis, fator sensível em ano eleitoral. Embora relevante para caminhoneiros e transportadoras, o subsídio adiciona pressão sobre um orçamento já apertado.
Pacote contra inadimplência ainda sem custo definido
Outro foco da equipe econômica é a elaboração de um pacote para reduzir a inadimplência das famílias. Dados do Banco Central apontam que mais de 27% da renda mensal dos brasileiros está comprometida com dívidas em atraso. Segundo o ministro, a proposta prioriza renegociação de crédito em bases sustentáveis. Caso o governo opte por ampliar subsídios, porém, novas despesas poderão surgir.
Eventual corte na “taxa das blusinhas” em debate
No radar eleitoral também está a possibilidade de rever a alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, popularmente chamada de “taxa das blusinhas”. Apenas em 2025, o tributo rendeu R$ 5 bilhões aos cofres públicos, colaborando para a meta fiscal. Qualquer redução implicaria perda de receita e necessidade de compensações para não ferir o arcabouço.
Imposto de Renda pode ser automatizado
Em agenda de médio prazo, Durigan propõe automatizar a declaração do Imposto de Renda, expandindo a versão pré-preenchida já existente. A iniciativa promete reduzir burocracia sem afetar arrecadação, pois não altera alíquotas nem amplia isenções. Para especialistas, a mudança melhora a experiência do contribuinte, mas pouco contribui para o equilíbrio fiscal.
Credibilidade fiscal em xeque
Economistas consultados apontam que os obstáculos de Durigan espelham limitações vividas por Fernando Haddad. Para Virene Matesco, da Fundação Getulio Vargas, o governo “não consegue cumprir as metas que ele mesmo definiu”. A fragilidade do arcabouço e o encurtamento do espaço para investimentos acentuam o ceticismo de investidores.
André Nassif, da Universidade Federal Fluminense, lembra que as metas traçadas no início de 2023 — déficit zero em 2024 e superávits crescentes até 2026 — foram consideradas ambiciosas demais. A recente revisão, que posterga o equilíbrio para 2025 e reduz o superávit esperado em 2026 para 0,25% do PIB, não dissipou o mal-estar no mercado.
Investimento público segue baixo
Com o esforço de ajuste, os investimentos federais mantêm-se próximos de 2,3% do PIB, patamar julgado insuficiente para sustentar crescimento robusto. A combinação de rigidez orçamentária e despesas obrigatórias crescentes leva o país a um ciclo de “stop and go”, segundo Nassif. Nesse contexto, o principal desafio de Durigan será reconstruir a confiança fiscal sem sacrificar a atividade econômica.
Perspectivas para 2026
À medida que 2026 avança, Durigan equilibra necessidades eleitorais — como conter preços e aliviar dívidas das famílias — com a obrigação de demonstrar disciplina nas contas públicas. Qualquer passo em falso pode ampliar a percepção de risco e elevar o custo da dívida, justamente quando o governo precisa de credibilidade para financiar programas sociais e infraestrutura.
Analistas concordam que a situação exige escolhas difíceis: ampliar cortes ou buscar novas fontes de receita. A automatização do Imposto de Renda, por si só, não gera espaço fiscal. Já o subsídio ao diesel e a possível flexibilização da taxa das blusinhas podem consumir parte do limitado colchão orçamentário.
Sem uma estratégia clara de médio prazo, o governo corre o risco de repetir a trajetória de ajustes paliativos que não resolvem o desequilíbrio estrutural — dilema herdado e agora ampliado pelo novo titular da Fazenda.
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