O número de brasileiros negativados chegou a 83,5 milhões em 2026, segundo a Serasa, enquanto a taxa básica de juros segue em 14,25% ao ano. No mesmo período, fintechs ampliaram em 51% o volume de crédito, impulsionadas pelo consignado privado oferecido a 47 milhões de empregados formais. Esse cenário de dívida crescente e fácil acesso a novos empréstimos, somado à alta nas apostas online, acende um alerta para empresas quanto a produtividade, absenteísmo e riscos de furtos internos.
Endividamento recorde desafia gestão de pessoas
83,5 milhões de negativados e juros elevados
Os dados da Serasa revelam que 83,5 milhões de consumidores encerraram 2026 com o nome restrito. O quadro se agrava porque a taxa Selic permaneceu em 14,25% ao ano, encarecendo qualquer renegociação de débito. Para boa parte dos trabalhadores, a renda é cada vez mais comprometida antes mesmo de cair na conta, gerando dependência de créditos emergenciais.
Crédito do Trabalhador acelera o consignado privado
Levantamento da PwC Brasil e da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) mostrou que as operações de fintechs de crédito atingiram R$ 53,8 bilhões em 2025, alta de 51% sobre 2024. O consignado privado já responde por 47% dessa carteira, percentual que era de 40% no ano anterior. O impulso veio do Crédito do Trabalhador, liberado em março de 2025 para cerca de 47 milhões de empregados com carteira assinada e contratado pela Carteira de Trabalho Digital via conta Gov.br.
A Lei nº 10.820/2003 limita a margem consignável a 35% do salário líquido. Contudo, especialistas lembram que a folha de pagamento ainda sofre outros abatimentos: coparticipação em planos de saúde, faltas, atrasos e pensão alimentícia. Quando somados a eventuais empréstimos pessoais fora da margem legal, esses descontos reduzem sensivelmente o poder de compra mensal do trabalhador.
Apostas online ganham espaço no orçamento familiar
O rápido crescimento das apostas esportivas online também pressiona o orçamento, sobretudo das faixas de menor renda. De acordo com informações do Banco Central, a participação desse gasto no orçamento familiar aumentou ao longo de 2024. Já em 2025, o mercado movimentou de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões por mês. A arrecadação tributária subiu de R$ 2,2 bilhões para R$ 4,5 bilhões nos primeiros quatro meses de 2026, ante igual período de 2025, e a expectativa é de nova alta durante a Copa do Mundo de 2026.
Efeitos na produtividade e nas perdas corporativas
Pesquisa da SalaryFits, empresa do grupo Serasa Experian, indica que 66% dos trabalhadores sentem mais estresse devido a dívidas; 47% relatam exaustão física e 33% observam queda na produtividade. Outro levantamento da CNDL/SPC Brasil mostra que 61% dos inadimplentes afirmam impacto direto no desempenho profissional e 80% citam reflexos na saúde física ou mental.
Além das questões de saúde, o varejo brasileiro perdeu R$ 42,1 bilhões em 2025 por furtos e perdas operacionais, segundo estudo da Abrappe/KPMG. Desse total, furtos internos representam entre 8% e 10%. A pressão financeira sobre colaboradores aparece como fator de risco nas políticas de prevenção de perdas.
Monitoramento financeiro vira pauta de RH e compliance
Diante do avanço do consignado privado, do endividamento histórico e da popularização das apostas online, empresas passaram a incluir a saúde financeira do trabalhador em programas de bem-estar, gestão de pessoas e compliance. Ferramentas de educação financeira, parcerias para renegociação de dívidas e acompanhamento individual do limite consignável são algumas das iniciativas em curso, buscando reduzir absenteísmo e elevar a produtividade.
Custos ocultos para o empregador com a pressão financeira interna
Com base nos dados apresentados, a empresa que ignora o tema assume risco de produtividade mais baixa, furtos internos e despesas trabalhistas indiretas. O custo de oportunidade envolve horas perdidas com faltas e queda de concentração — indicadores que afetam lucros e podem superar, em longo prazo, o gasto com políticas de educação financeira. Ao investir em prevenção, a companhia reduz passivos ocultos e melhora o clima organizacional, potencializando retorno sobre capital humano sem elevar de forma agressiva sua folha salarial.
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