Brasília, 2 de junho de 2026 – O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou como “extremamente injusta” a sugestão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para impor tarifa de 25% a produtos brasileiros sob a Seção 301. O governo federal pretende reverter a medida antes da eventual assinatura pelo presidente norte-americano Donald Trump, prevista até 15 de julho, e já articula ofensiva diplomática em várias frentes.
Governo aponta desproporção na proposta norte-americana
Segundo Alckmin, a recomendação norte-americana carece de embasamento técnico e ignora o atual desequilíbrio comercial favorável aos Estados Unidos. Dados oficiais indicam que, em 2025, o saldo combinado de bens e serviços registrou superávit de US$ 40 bilhões para Washington. Ainda assim, produtos brasileiros podem sofrer sobretaxa generalizada, cenário que Brasília considera “totalmente descabido”.
Ao lembrar que o assunto tramita amparado na Seção 301, o vice-presidente ressaltou que o dispositivo legal norte-americano historicamente se destina a práticas consideradas desleais, o que, na avaliação do Planalto, não se aplica ao Brasil.
Pix está fora da negociação, afirma Alckmin
Em coletiva no Palácio do Planalto, Alckmin defendeu o Pix, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central do Brasil em 2020. De acordo com o vice-presidente, qualquer tentativa de vincular a tecnologia a concessões comerciais “não tem a menor lógica” porque o serviço é gratuito para usuários e empresas, além de amplamente elogiado no exterior.
“O Pix é patrimônio nacional, conquista do povo brasileiro”, enfatizou. Com isso, o governo descarta inserir alterações no sistema como moeda de troca em eventual negociação com Washington.
Vice-presidente denuncia sabotagem interna
Alckmin também criticou a atuação de agentes domésticos que, segundo ele, buscam “prejudicar o país por interesse eleitoral”. Para o vice-presidente, essa postura afeta emprego, renda e a imagem externa do Brasil justamente quando se intensifica o diálogo bilateral. Sem citar nomes, classificou os opositores como “falsos patriotas” que colocam objetivos pessoais acima do interesse público.
Balança comercial favorece os EUA, aponta Planalto
No detalhamento da relação bilateral, Alckmin apresentou números que, segundo ele, revelam abertura tarifária do lado brasileiro. Dos dez principais itens exportados pelos Estados Unidos ao Brasil, oito entram com alíquota zero via regime de ex-tarifário, levando a uma tarifa média de apenas 3,1% sobre produtos norte-americanos. Já no setor de açúcar, o governo Trump mantém cota de 150 mil toneladas e tarifação de 80% sobre o excedente, prática que Brasília considera protecionista.
Avanços ambientais entram no debate
O USTR citou suposto desmatamento ilegal como justificativa para a tarifa extra. Alckmin rebateu mencionando a maior queda na devastação dos seis biomas brasileiros nos últimos sete anos, com redução superior a 50% na Amazônia. Ele reiterou o compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2030, alinhado às metas apresentadas pelo país nas conferências do clima.
Estratégia diplomática até 15 de julho
Para tentar suspender ou mitigar a sobretaxa, o governo intensificará reuniões técnicas do grupo de trabalho bilateral. Os ministros Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e Mauro Vieira (Relações Exteriores) buscarão encontros com o representante comercial dos EUA, embaixador Jamieson Greer, nesta quarta-feira (3) em Paris, durante o Conselho Ministerial da OCDE. O vice-presidente lembrou ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com Donald Trump em 7 de maio, na Casa Branca, para tratar do tema.
Tarifa de 25%: custo potencial para exportadores brasileiros
Com base nos números citados por Alckmin, um superávit de US$ 40 bilhões para os Estados Unidos demonstraria que o Brasil já importa mais do que exporta na relação bilateral. Se vigorar uma tarifa de 25% sobre itens brasileiros, fabricantes de aço, produtos agrícolas e bens industrializados podem perder competitividade imediata. O impacto direto recairia sobre margens de lucro, repasse de preços e possíveis cortes de produção, afetando emprego e arrecadação. Além disso, eventuais retaliações do Brasil – embora não mencionadas oficialmente – poderiam encarecer insumos importados, elevando custos internos. A janela de negociação até 15 de julho, portanto, representa oportunidade crucial para evitar choque tarifário que comprometeria cadeias produtivas já pressionadas por juros elevados e câmbio volátil.
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