A transformação digital mudou a forma como as companhias tomam decisões e, segundo avaliação da diretora-presidente da ABSC, Giovana Zanirato, publicada no Portal Contábeis, o avanço da inteligência artificial (IA) está elevando o grau de exigência sobre quem lidera as organizações. A executiva alerta que, sem governança de dados, projetos de IA tendem a potencializar falhas operacionais em vez de gerar eficiência, criando um risco estratégico para o negócio.
Abundância de dados expõe fragilidades estruturais
Zanirato observa que acesso a informação já não é problema: dashboards, relatórios e bancos de dados proliferam em ritmo acelerado. O ponto crítico, porém, está na qualidade desses registros. Muitas empresas passaram a investir em analytics e IA antes de organizar fluxos, padronizar cadastros e definir responsáveis pela curadoria dos indicadores. Nesse cenário, a IA atua como amplificador: se a base é falha, as decisões geradas por modelos automatizados reproduzem — e até ampliam — os equívocos.
A preocupação está alinhada à Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, documento oficial disponível no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que reforça a importância de frameworks de governança para evitar vieses e assegurar confiabilidade.
Papel do C-Level deixa de ser oracular e passa a ser arquitetônico
A executiva argumenta que o modelo tradicional, baseado em experiência acumulada e decisões centralizadas, perde espaço diante do volume de dados disponível. O C-Level precisa agora atuar como arquiteto de informação: formular perguntas de negócio, garantir que as bases reflitam a realidade operacional e estimular a cultura analítica nas equipes. Em vez de oráculo, o líder se torna curador de evidências.
Essa virada inclui mapear processos, revisar integrações de sistemas e estabelecer níveis claros de responsabilidade sobre cada ponto da cadeia de dados. Sem esse alicerce, qualquer algoritmo, por mais avançado que seja, operará em terreno instável.
Democratização da informação aumenta autonomia e responsabilidade
Com relatórios circulando além das áreas técnicas, times ganham autonomia para propor melhorias, mas também carregam o ônus de interpretar corretamente os números. Zanirato frisa que disponibilizar dashboards não basta: sem capacitação analítica, o excesso de gráficos pode gerar leituras superficiais e escolhas desalinhadas à estratégia.
Essa mudança cultural pressupõe treinamento contínuo, revisão de processos de validação e incentivos para que profissionais questionem origem e consistência dos dados. O objetivo final é transformar métricas em insumos práticos de gestão, não em ruído organizacional.
IA como aliada, não substituta da liderança
A autora reforça que a inteligência artificial agiliza análises, identifica padrões e simula cenários, mas não elimina o julgamento humano. A competência decisória segue ancorada em visão crítica, contexto de mercado e accountability — fatores que nenhum algoritmo entrega isoladamente. O debate central, portanto, não é se a IA dispensará líderes, e sim quais líderes saberão usar IA sem terceirizar o pensamento estratégico.
Nesse ponto, Zanirato defende que a responsabilidade dos executivos inclui formar profissionais capazes de conectar insights de máquinas a objetivos de negócio, mantendo a IA como ferramenta de suporte, não como piloto automático.
Revisitar o “básico bem-feito” antes de adotar soluções avançadas
Antes de contratar plataformas sofisticadas, a recomendação é voltar ao início da cadeia: registrar corretamente transações, padronizar nomenclaturas, definir políticas claras de acesso e atualizar cadastros. Segundo a avaliação da ABSC, essa disciplina operacional parece trivial, mas costuma ser negligenciada em projetos que priorizam velocidade sobre consistência.
Empresas que estruturam esse alicerce colhem ganhos de curto prazo em eficiência e, no longo prazo, constroem vantagem competitiva sustentável, pois evitam retrabalho, reduzem riscos de compliance e conseguem extrair valor real de modelos analíticos.
Custo de oportunidade da desordem informacional
A desorganização de dados não apenas inviabiliza resultados de IA: ela consome recursos que poderiam ser destinados a iniciativas estratégicas. Cada hora gasta corrigindo relatórios ou reconciliando bases representa tempo subtraído de inovação e planejamento. Em um ambiente corporativo pautado por margens apertadas, esse desvio de energia pode significar perda de mercado. Logo, investir em governança de dados deixa de ser despesa operacional e se consolida como alavanca de crescimento — um custo de oportunidade que poucos líderes podem ignorar.
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