Na sexta-feira, 26 de junho de 2026, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua revelou que a taxa de subutilização da força de trabalho brasileira recuou para 13,3% no trimestre móvel encerrado em maio. O resultado, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é o mais baixo da série iniciada em 2012 e supera a marca anterior, de 13,4%, registrada no último trimestre de 2025. Ao todo, 15,1 milhões de pessoas estavam subutilizadas, 920 mil a menos que no trimestre anterior.
O que mede a taxa de subutilização
Enquanto a taxa de desocupação — atualmente em 5,6% — contabiliza apenas quem procurou emprego e não encontrou, a taxa de subutilização lança luz sobre trabalhadores que, por diferentes razões, não conseguem utilizar toda a sua capacidade produtiva. O indicador inclui:
- Desocupados – pessoas que buscaram vaga nos 30 dias anteriores à entrevista;
- Subocupados por insuficiência de horas – empregados que desejam trabalhar mais horas, mas não encontram jornada maior;
- Força de trabalho potencial – indivíduos disponíveis que não procuraram vaga, entre eles os desalentados, que desistiram de buscar emprego por acreditar que não serão contratados.
Segundo o analista do IBGE, William Kratochwill, considerar esses três grupos oferece um retrato mais amplo sobre a real ociosidade do mercado.
Números do trimestre apontam mercado aquecido
No intervalo de março a maio de 2026, a queda de 5,7% no contingente de subutilizados indica que o ritmo de contratação segue firme. Foram 15,1 milhões de pessoas nessa condição, contra 16,0 milhões no trimestre imediatamente anterior, quando a taxa estava em 14,1%. Em relação ao mesmo período de 2025, a redução foi de 1,9 milhão de trabalhadores, reforçando a tendência de absorção de mão de obra.
Para Kratochwill, o “colchão” de trabalhadores disponíveis está encolhendo, o que facilita a negociação de salários e benefícios por parte dos profissionais. “O mercado está absorvendo toda mão de obra possível”, avalia.
Comparação histórica desde 2012
A série histórica da Pnad Contínua permite dimensionar a magnitude do novo patamar. O recorde anterior, de 13,4%, vigorava desde o fim de 2025. Já a maior taxa já apurada foi de 30,7%, no trimestre encerrado em agosto de 2020, em meio à pandemia de covid-19. Antes da crise sanitária, o pico havia sido de 25% em maio de 2019, quando 28,4 milhões de brasileiros estavam subutilizados.
Entre 2020 e 2022, no auge das restrições de mobilidade, o indicador permaneceu acima de 25%. A retomada gradual da atividade impulsionou a queda da subutilização, movimento que se intensificou em 2023 e 2024. O novo piso de 13,3% confirma a inversão de tendência e sinaliza uma fase de maior demandas por mão de obra.
Consequências para trabalhadores e empregadores
Escassez relativa de profissionais pode pressionar reajustes salariais, elevar custos de contratação e estimular melhores condições de trabalho. Kratochwill afirma que, diante do esgotamento do estoque de trabalhadores disponíveis, empresas precisarão competir mais intensamente por talentos, seja por remuneração, seja por benefícios ou flexibilidade.
Setores que tradicionalmente empregam grande número de subocupados por insuficiência de horas — como comércio, serviços de alimentação e construção civil — tendem a sentir o impacto primeiro. Já áreas com forte expansão tecnológica podem repensar políticas de capacitação interna para atrair perfis atualmente subutilizados.
Diferença entre desemprego e subutilização
Embora relacionados, os dois indicadores destacam aspectos distintos do mercado. A taxa de desemprego capta quem já está na fila de procura por ocupação, enquanto a subutilização evidencia potencial de mão de obra ainda ociosa. Assim, o desemprego pode permanecer estável ou cair lentamente ao mesmo tempo em que a subutilização recua de forma mais vigorosa, caso trabalhadores subocupados passem a ter jornadas completas.
Essa distinção ajuda a compreender por que, mesmo com 5,6% de desocupação, ainda havia 15,1 milhões de brasileiros sem pleno aproveitamento profissional até maio. A reversão desse quadro depende não apenas da abertura de vagas, mas de jornadas compatíveis com a disponibilidade dos indivíduos.
Fontes oficiais confirmam a tendência
Os números utilizados na reportagem estão disponíveis na página da IBGE, que compila mensalmente informações sobre emprego, renda e horas trabalhadas em todo o país. A metodologia é reconhecida internacionalmente e segue padrões da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Escassez de mão de obra e impacto nos salários
A leitura estratégica dos dados indica uma janela de custo de oportunidade tanto para empresas quanto para trabalhadores. Com a menor taxa de subutilização em 14 anos de série, cada ponto percentual adicional de aquecimento pode representar milhares de vagas preenchidas a salários progressivamente maiores, dado o desequilíbrio entre oferta e demanda. Para as companhias, retardar contratações pode significar arcar com valores salariais mais altos no curto prazo. Já profissionais que buscam recolocação encontram cenário favorável para negociar salários, benefícios e condições de jornada, principalmente em segmentos que dependem de qualificação técnica específica.
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