Reforma tributária eleva procura por gestão fiscal em ERPs
Reforma tributária eleva procura por gestão fiscal em ERPs. A expectativa de mudanças na cobrança de impostos sobre serviços internacionais está levando fornecedores e consultorias a rever sua estratégia de desenvolvimento para sistemas de gestão empresarial, apontam executivos do setor.
Entenda a lacuna fiscal nos ERPs
A evolução dos sistemas de gestão empresarial (Enterprise Resource Planning) no Brasil esbarrou, até agora, em um fator decisivo: a escassez de demanda por módulos específicos de gestão fiscal para importação de serviços e tecnologia. Apesar de o recurso tecnológico já existir, a ausência de pressão das empresas manteve o tema fora do radar dos principais desenvolvedores de software.
Segundo Sergio Arsky, head comercial da WTM, companhia especializada em soluções para importação e exportação de serviços, “hoje esse tema simplesmente não está no radar dos ERPs porque não existe demanda dos clientes. Sem essa pressão, não há desenvolvimento de módulos ou soluções específicas”.
Foco dos fornecedores migra para integrações
Nos últimos anos, os fornecedores de ERPs preferiram abrir suas plataformas a aplicações de terceiros em vez de escrever funcionalidades do zero. A lógica é integrar soluções já consolidadas—como CRMs, gateways de pagamento, ferramentas de inteligência artificial e sistemas fiscais—medir a aderência e, somente se houver volume, escalar a oferta.
Essa postura contribuiu para que a gestão fiscal da importação de serviços permanecesse à margem: como não havia um mercado significativo, tampouco se viabilizava o investimento em pesquisa e desenvolvimento. A estratégia de marketplace dominou, privilegiando plug-ins já testados.
Consultorias atuam de forma reativa
O comportamento das consultorias de implementação acompanha o movimento do mercado. Embora possuam capacidade técnica para integrar novas rotinas fiscais, essas empresas trabalham de maneira reativa, atendendo somente quando o cliente sinaliza a necessidade. “Muitas consultorias sequer receberam esse tipo de demanda”, afirma Arsky, reforçando a percepção de que a lacuna é gerada pela baixa priorização interna das companhias.
Na prática, isso significa que, mesmo quando as organizações precisam calcular corretamente tributos sobre contratações de software no exterior, o processo costuma ocorrer fora do ERP, em planilhas ou sistemas paralelos, o que aumenta custos e riscos de autuação.
Reforma tributária deve mudar o cenário
A aprovação da reforma tributária, em debate no Congresso Nacional, promete alterar esse panorama. Entre os pontos de atenção estão a criação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual e regras específicas para serviços digitais provenientes de outros países. A perspectiva de maior complexidade fiscal tende a gerar, pela primeira vez, um volume expressivo de solicitações para automatizar a apuração desses tributos dentro do ERP.
Nicolas Ricardo Junkes, CTO da WTM, resume o sentimento do mercado: “Quando trazemos o contexto da reforma tributária, a visão muda completamente. Os players passam a enxergar que pode haver um aumento relevante de demanda, o que torna o tema mais estratégico”. Para Junkes, soluções capazes de se conectar rapidamente aos ERPs e calcular tributos de importação de serviços terão vantagem competitiva.
ERP Summit 2026 aponta tendências
As discussões sobre o impacto tributário tomaram conta do ERP Summit 2026, realizado em 17 e 18 de março, em São Paulo. O encontro reuniu os principais fornecedores de software de gestão, consultorias e especialistas em tecnologia. Representantes da WTM participaram de painéis voltados à transformação fiscal digital e relataram que integradores já cogitam criar sandboxes para testar módulos de importação de serviços antes mesmo de a demanda chegar em massa.
Os debates destacaram três tendências para os próximos anos:
- Integração nativa: ERPs analisarão parcerias com fintechs fiscais para oferecer cálculo automático de tributos internacionais.
- Compliance em tempo real: Obrigações acessórias serão geradas diretamente na plataforma, reduzindo erros humanos.
- Marketplace tributário: Usuários poderão adquirir extensões específicas para nichos como SaaS, licenciamento de software e consultoria estrangeira.
Oportunidades para empresas e profissionais
Para as companhias brasileiras que contratam serviços no exterior, o momento é de revisão de processos internos. Automatizar a gestão fiscal reduz o risco de autuações, evita multas retroativas e melhora a governança financeira. Já para os profissionais de contabilidade e tecnologia, o novo ambiente regulatório representa um nicho de especialização em alta.
Arsky reforça que “a demanda reprimida deve emergir assim que a reforma sair do papel”, abrindo espaço para novas carreiras em parametrização de ERPs, consultoria fiscal e desenvolvimento de APIs específicas.
Próximos passos para fornecedores de ERP
Com a crescente pressão dos clientes, fabricantes de software estudam três abordagens: desenvolver módulos proprietários, adquirir startups especializadas ou firmar parcerias estratégicas. Qualquer que seja o caminho, a palavra-chave é agilidade. Quem oferecer primeiro uma solução robusta e em conformidade com as novas regras tributárias poderá capturar uma fatia significativa do mercado.
Enquanto isso, empresas que já contratam serviços externos devem mapear suas operações, classificar corretamente cada despesa e projetar cenários de impacto fiscal. Antecipar-se às mudanças permitirá negociar melhor com fornecedores de ERP e evitar custos às pressas quando a lei entrar em vigor.
A reforma tributária, portanto, surge como catalisadora de inovação em um segmento que, até pouco tempo, permanecia estático. Se confirmadas as projeções, a gestão fiscal da importação de serviços passará a ocupar lugar de destaque nos roteiros de atualização dos principais ERPs do país.
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