Entre janeiro e meados de maio de 2026, a Receita Federal arrecadou R$ 2,13 bilhões com o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, mostram dados oficiais. O tributo, apelidado de “taxa das blusinhas”, correspondeu a um crescimento de 15,4 % frente ao mesmo intervalo de 2025, pouco antes de ser revogado. Apesar do fim da cobrança federal, o assunto permanece no centro das discussões sobre comércio eletrônico e política tributária no Brasil.
Surpreendente salto: taxa das blusinhas rende R$2,13 bi antes do fim
Arrecadação bilionária em poucos meses
O volume registrado nos primeiros meses de 2026 reforça o peso que o novo modelo de tributação ganhou desde que entrou em vigor, em agosto de 2024. Naquele ano, a alíquota de 20 % passou a incidir sobre remessas de baixo valor enviadas por plataformas aderentes ao programa Remessa Conforme, como Shein, Shopee e AliExpress. A rápida expansão do e-commerce internacional impulsionou o caixa federal: em 2025, a mesma cobrança adicionou R$ 5 bilhões ao Tesouro Nacional, o maior patamar já visto para esse tipo de imposto.
Os números divulgados pela Receita Federal mostram que, mesmo antes de completar cinco meses em 2026, a taxa já superava R$ 2 bilhões, sinalizando continuidade no ritmo de compras internacionais pelos brasileiros. Entretanto, em maio, o governo decidiu revogar a medida, encerrando a entrada desse fluxo específico de recursos.
Como funcionava a cobrança
Até a revogação, qualquer encomenda de até US$ 50 enviada por empresas estrangeiras cadastradas no Remessa Conforme era automaticamente taxada em 20 % de Imposto de Importação. Antes de agosto de 2024, remessas nessa faixa de valor tinham isenção, o que estimulava o consumo de itens de menor preço, sobretudo vestuário e acessórios — daí o apelido “taxa das blusinhas”.
A medida foi aprovada pelo Congresso Nacional após forte lobby de segmentos industriais que denunciavam concorrência desleal entre produtos nacionais, tributados, e mercadorias importadas, então isentas. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços à época, Geraldo Alckmin, manifestou apoio público ao novo tributo, alegando que ele protegeria empregos e ampliaria a competitividade da indústria brasileira.
Fim do imposto e permanência do ICMS
Com o término da cobrança federal em maio de 2026, parte da carga tributária sobre as compras internacionais caiu, mas não desapareceu. As remessas continuam sujeitas ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), cuja alíquota varia de 17 % a 20 % conforme o estado de destino. Na prática, o consumidor passou a pagar apenas o imposto estadual, o que reduziu o preço final, sobretudo em pedidos de menor valor.
Especialistas em comércio exterior observam que a diferença no bolso do cliente pode ser mais perceptível justamente na faixa de até US$ 50, a mais afetada pela antiga taxa federal. Entretanto, ainda não há dados consolidados sobre o impacto dessa mudança nos volumes de importação após maio.
Indústria e consumidores em lados opostos
Desde 2024, a tributação gerou forte polarização. Consumidores e entidades de defesa do consumidor sustentaram que os 20 % adicionais encareciam produtos que, mesmo com o imposto, continuavam sem equivalentes em preço no mercado interno. Também questionaram a diferença de tratamento com mercadorias trazidas por viajantes, sujeitas a outras regras fiscais.
Por outro lado, representantes da indústria de vestuário, calçados e têxteis defenderam o imposto como instrumento de equalização tributária. Para eles, a isenção anterior favorecia vendedores internacionais, que não arcam com os mesmos custos de produção locais, como encargos trabalhistas e tributos sobre a folha de pagamento. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) chegou a afirmar que a medida ajudaria a preservar empregos e estimular novos investimentos no setor.
Debate tributário deve prosseguir
Mesmo após a extinção da “taxa das blusinhas”, o tema não saiu da agenda econômica. O avanço acelerado do comércio eletrônico transfronteiriço pressiona o governo a buscar um equilíbrio entre competitividade, arrecadação e proteção ao consumidor. De um lado, setores produtivos pedem novas regras que mitiguem a competição considerada desleal; de outro, consumidores resistem a aumentos de custos que limitem o acesso a produtos importados de baixo valor.
Para 2026 e além, especialistas projetam que qualquer proposta de tributação deverá considerar a experiência recente: a arrecadação bilionária evidencia o potencial de receitas, mas a reação do mercado demonstra o peso político associado ao preço final das compras online.
Impacto financeiro e custo de oportunidade
Do ponto de vista fiscal, os R$ 2,13 bilhões levantados em menos de cinco meses representam recursos equivalentes, por exemplo, ao orçamento anual de programas sociais de porte médio. A revogação do tributo, portanto, cria um custo de oportunidade: o governo abre mão de uma fonte expressiva de receita em troca de aliviar a carga sobre o consumidor e reduzir a polêmica junto ao varejo online. Já para as empresas nacionais, o fim da alíquota reacende a preocupação com a concorrência estrangeira e pressiona pela revisão de incentivos ou reformas estruturais que compensem eventuais perdas de mercado.
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