Há exatos doze meses, o Brasil passou a registrar menos de 2,5% da população sob risco de subnutrição, condição que permitiu sua saída do Mapa da Fome. Dados oficiais ressaltam, porém, que 6,5 milhões de brasileiros continuam em insegurança alimentar grave, exigindo a continuidade de políticas de emprego, renda, saúde, educação e abastecimento. Pesquisadores e gestores públicos alertam que o marco só será preservado se houver esforço permanente e coordenado entre governo federal, estados e municípios.
Resultados inéditos e o Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar
Coordenado pelo pesquisador Lucas de Almeida Moura, da Faculdade de Saúde Pública da USP, o estudo que originou o MUFII (Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar) analisou 12 indicadores dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável entre 2018 e 2022. A pesquisa, publicada na revista Sustainability, identificou avanço da fome em 2022, com Santa Catarina no melhor patamar e Maranhão, Acre e Amazonas nos piores. Na maior parte dos estados do Norte e do Nordeste, mais de 50% da população enfrenta insegurança alimentar em múltiplas dimensões. A equipe planeja atualizar o índice para os anos posteriores.
Políticas públicas que sustentaram a queda
Do ponto de vista governamental, o Plano Brasil sem Fome foi decisivo ao articular proteção social, estímulo à agricultura familiar e reajuste na merenda escolar. A secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), Valéria Burity, afirma que a prioridade atual é “incluir quem segue em risco nas redes de proteção”. Mais detalhes sobre ações em andamento podem ser consultados no site oficial do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Três frentes para reduzir desigualdades
A diretora do Instituto Fome Zero, Semíramis Domene, resume os vetores que levaram ao menor índice de fome já medido:
- Redução da desigualdade de renda, com o menor desemprego em 13 anos e reajustes reais do salário mínimo acima de 6% desde 2022;
- Reforço de programas de proteção social, entre eles Bolsa Família, Cadastro Único modernizado em 2025 e Sistema Único de Saúde (SUS);
- Aumento da produção de alimentos via agricultura familiar, impulsionada pelo fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
A importância do Bolsa Família e da estabilidade de preços
Para o economista Daniel Duque, do Ibre/FGV, o reajuste do Bolsa Família devolveu poder de compra a milhões de famílias e coincidiu com safras recordes que contiveram a inflação dos alimentos entre 2023 e 2025. Ele observa que, sem um mercado de trabalho aquecido, o país corre risco de regressão, já que renda e emprego são “condições imprescindíveis” para garantir dieta mínima adequada.
Desafios regionais permanecem
Apesar do avanço nacional, o MUFII mostra que Norte e Nordeste concentram os piores indicadores. No Maranhão, Acre e Amazonas, a insegurança alimentar multidimensional supera a marca de 50%. Especialistas defendem ações direcionadas, como ampliação de sistemas de abastecimento locais, melhorias em saneamento e qualificação profissional regionalizada.
Iniciativas complementares para 2026 em diante
Entre as medidas em discussão no governo federal estão:
- Criação de fundos permanentes para compras públicas de produção familiar;
- Expansão de cozinhas comunitárias em áreas urbanas de alta vulnerabilidade;
- Integração de dados do Cadastro Único com plataformas estaduais de saúde e educação, permitindo respostas mais rápidas a choques econômicos;
- Metas anuais de redução da insegurança alimentar grave, acompanhadas por painéis públicos de monitoramento.
Impacto financeiro e custo de oportunidade das políticas de segurança alimentar
Manter 6,5 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave implica gasto emergencial constante com saúde e assistência, além de perda de produtividade. Especialistas apontam que cada real investido em programas como Bolsa Família e PAA retorna múltiplos em redução de despesas médicas e aumento de rendimento escolar. Se o mercado de trabalho seguir aquecido, o custo de oportunidade de não reforçar essas políticas aumenta, pois a economia deixaria de captar ganhos de capital humano vindos de uma população bem nutrida. Em contrapartida, retrocessos poderiam recolocar o país no Mapa da Fome, o que afastaria investimentos internacionais e pressionaria ainda mais o orçamento público.
Para continuar acompanhando as atualizações, acesse nossa editoria de Notícias de Finanças.
Descubra mais sobre Finanças KDicas
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
