Petrobras destitui diretor após leilão de GLP com ágio
A Petrobras afastou na noite de 6 de abril de 2026 o diretor executivo de Logística, Comercialização e Mercados, Claudio Romeo Schlosser, dois dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticar publicamente o leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP) realizado em 31 de março. No certame, o combustível chegou a ser arrematado por mais que o dobro do preço de tabela, provocando forte reação do governo em meio à escalada internacional do petróleo causada pela guerra no Irã. A decisão do Conselho de Administração ocorreu no mesmo dia em que o Ministério da Fazenda anunciou zeragem de tributos e subsídios emergenciais para conter o impacto no bolso do consumidor.
Leilão com ágio superior a 100% acendeu alerta no Planalto
Responsável pelas vendas da estatal, Schlosser comandava a diretoria que autorizou o leilão de 31 de março. Na ocasião, distribuidoras chegaram a pagar mais de 100% de ágio sobre o preço de referência, elevando o valor do botijão de 13 quilos a patamares inéditos desde 2022. Dois dias depois, em entrevista à TV Record Bahia, Lula classificou o processo como “cretinice” e “bandidagem”, afirmando que a iniciativa contrariava orientações internas da companhia de evitar repasses em meio ao conflito no Oriente Médio.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) avaliou o certame e iniciou fiscalização em refinarias da Petrobras para apurar possível prática abusiva de preços. Técnicos do órgão regulador coletaram notas de venda, planilhas de custos e atas internas para medir se houve violação da Política de Preços da estatal ou formação de cartel entre distribuidoras.
Subsídios e zeragem de impostos tentam segurar o preço do botijão
Paralelamente à troca de comando, a equipe econômica publicou nesta terça-feira (7) medida provisória que reduz a zero o PIS/Cofins sobre o GLP até 31 de dezembro de 2026. O texto também autoriza um crédito extraordinário de R$ 4,2 bilhões para subsidiar a diferença entre o preço de mercado e o valor de referência que consta no Programa Auxílio Gás dos Brasileiros. Segundo o Ministério da Fazenda, cada alta de 1% no botijão impacta em 0,03 ponto percentual o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — cenário que o governo quer mitigar antes de o efeito chegar às tarifas de energia e à alimentação industrial.
Transição na diretoria: Angélica Laureano assume vendas
Com a saída de Schlosser, a presidente Magda Chambriard designou Angélica Laureano, então diretora de Transição Energética e Sustentabilidade, para comandar Logística, Comercialização e Mercados. William França, titular de Processos Industriais e Produtos, acumulará temporariamente as funções de Laureano. Internamente, a expectativa é reavaliar todos os editais de venda de combustíveis planejados para o segundo semestre, sobretudo aqueles vinculados a contratos futuros de GLP, diesel marítimo e querosene de aviação.
Conselho de Administração também passa por mudanças
Na mesma reunião, Marcelo Weick Pogliese foi eleito presidente do Conselho de Administração até a assembleia-geral marcada para 17 de abril. Ele substitui Bruno Moretti, que deixou o colegiado para assumir o Ministério do Planejamento e Orçamento. Além disso, a Petrobras informou ao mercado que recebeu a indicação de Guilherme Santos Mello, atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, para integrar e possivelmente presidir o conselho, condição ainda sujeita à análise de conformidade pela estatal.
Cenário internacional pressiona cotações
O conflito no Irã elevou o barril do Brent a US$ 102 na primeira semana de abril — alta de 18% desde o início do ano. A combinação de restrição logística no Estreito de Ormuz e sanções econômicas provocou corrida global por derivados leves, como o GLP. Analistas do Banco do Brasil Investimentos avaliam que o Brasil, importador de 25% do volume consumido, fica exposto a picos de preço sempre que a oferta externa encolhe.
Impacto na indústria e no consumidor
Embora conhecido como gás de cozinha, o GLP responde por cerca de 17% da matriz energética das indústrias de alimentos, vidros e cerâmicas. Um reajuste de 10% no produto pode reduzir em até 0,4 ponto o lucro operacional dessas empresas, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para os lares brasileiros, cada R$ 5 de aumento no botijão consome 0,6% do salário-mínimo. Essa dinâmica reforça a pressão sobre Brasília para conter alta e evitar repasse em cadeia aos demais itens da cesta básica.
Análise: risco reputacional versus custo de oportunidade para a estatal
Ao destituir o diretor, a Petrobras tenta preservar a própria imagem num momento de sensibilidade política e inflação em alta. Entretanto, adiar ou cancelar leilões em período de escassez traz custo de oportunidade estimado em R$ 250 milhões por trimestre, valor que poderia reforçar o caixa da companhia no curto prazo. A decisão, portanto, equilibra ganhos financeiros imediatos com o risco de desgaste perante governo e opinião pública, que vê o gás de cozinha como indicador-chave do poder de compra.
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