Empresas de diversos setores multiplicaram seus clubes de pontos ao longo dos últimos anos, mas a estratégia vem perdendo força: cadastros se acumulam sem gerar compras e pressionam os custos de marketing. O alerta, feito por Aluísio Cirino, sócio-fundador da Alloyal, aponta que grandes bases de usuários inativos alimentam uma ilusão de engajamento que não aparece no fluxo de caixa corporativo.
Programas de Fidelidade: o custo oculto dos clientes inativos
Métrica de cadastro alto não garante receita
De acordo com o especialista, celebrar o volume de novos usuários em programas de relacionamento equivale a contar quantas pessoas entraram em uma loja, olharam a vitrine e saíram sem consumir. O mercado nacional investe pesado em tecnologia, campanhas de aquisição e suporte, mas o retorno sobre investimento despenca quando o cliente esquece a plataforma logo após o registro.
O fenômeno cria um estoque de dados frios: perfis que consomem espaço em servidores, exigem manutenção de sistemas e, principalmente, distorcem relatórios de performance. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) ainda impõe obrigações extras de segurança e transparência, aumentando o custo operacional de manter cadastros ociosos.
Dados frios e ROI em queda
O diagnóstico frequente das lideranças tem sido o de que mais ofertas resolvem a baixa adesão, mas Cirino sustenta que o problema é de utilidade e conveniência. Clientes são levados a percorrer ecossistemas isolados, aprender regras complexas de pontuação e, muitas vezes, usar uma “moeda” com validade restrita. O resultado é o abandono precoce da iniciativa.
A empresa, entretanto, continua arcando com:
- Manutenção de plataformas tecnológicas próprias;
- Campanhas de comunicação periódicas para tentar reativar participantes;
- Estruturas de atendimento dedicadas a dúvidas sobre resgate de pontos;
- Adequação contínua às exigências da LGPD e de órgãos de defesa do consumidor.
Esses custos somados corroem margens e geram um efeito cascata: quanto maior a base inativa, maior a verba necessária para mantê-la — sem retorno proporcional.
Relevância é mais valiosa que volume
Para o executivo, fidelização não se constrói com barreiras de entrada, mas sim com benefícios que dialoguem com a rotina do usuário. Alimentação, saúde e transporte são exemplos de categorias facilmente percebidas como úteis. Quando a recompensa exige esforço — login, navegação em app exclusivo, leitura de regulamento — o programa passa a punir a lealdade em vez de premiá-la.
O Ministério da Economia, em publicações sobre competitividade empresarial, destaca que a experiência do consumidor é decisiva para a perenidade dos negócios (gov.br/economia). Na prática, simplificar o acesso aos benefícios reduz fricção, aumenta a frequência de uso e transforma pontos acumulados em receita tangível.
Integração como saída estratégica
A nova lógica sugerida é trocar a posse de um ecossistema fechado pela parceria em plataformas já consolidadas. Em vez de forçar cadastros adicionais, companhias podem integrar seus benefícios a meios de pagamento, marketplaces ou aplicativos que o consumidor utiliza diariamente. A interoperabilidade corta custos de manutenção e amplia a visibilidade das ofertas.
Empresas que adotam esse modelo enxergam ganhos como:
- Melhor alocação de recursos de marketing, direcionados a clientes ativos;
- Redução do tempo de desenvolvimento de novos recursos digitais;
- Acesso a dados de comportamento compartilhados — sempre em conformidade com a LGPD — que refinam a personalização de campanhas;
- Simplificação da jornada do usuário, fator-chave para a retenção real.
Impacto financeiro de bases de dados inativas
Manter milhões de cadastros fantasma implica mais do que servidores lotados: significa conviver com relatórios inflados que mascaram a necessidade de ajustes estratégicos. Quando o retorno não cobre os dispêndios com tecnologia, comunicação e compliance, o programa deixa de ser ferramenta de fidelização e passa a ser centro de custo. A escolha entre reinventar o clube de pontos ou reinvestir esses recursos em canais de conveniência pode determinar o ganho competitivo das empresas nos próximos ciclos de mercado.
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