Empresas brasileiras já sentem os efeitos práticos da Reforma Tributária do Consumo: levantamento inédito da Deloitte, divulgado em 2026, mostra que 60% das companhias veem a convivência de dois regimes de impostos até 2032 como principal risco operacional. O estudo, que ouviu 148 organizações de variados setores, também indica aumento expressivo em automação fiscal e uma corrida por tecnologia para reduzir incertezas.
Negócios mapeiam impactos e investem em automação
Segundo a pesquisa Tax do Amanhã 2026, 89% das empresas já concluíram análises internas sobre a reforma e 86% contam com algum processo tributário automatizado. A adoção de sistemas integrados (ERP), plataformas de compliance e soluções de análise de dados vem sendo ampliada: 72% aumentaram os aportes em tecnologia em relação ao ano anterior, enquanto 77% planejam elevar ainda mais os investimentos até 2026.
Medo da transição dupla domina o radar corporativo
A principal preocupação indicada pelos executivos é a vigência simultânea dos modelos antigo e novo, vigente desde janeiro de 2024 e prevista até dezembro de 2032. Debates sobre preço e margem com fornecedores (39%) e clientes (33%) aparecem em seguida. Já 31% citam os prazos de implantação dos novos tributos como ponto crítico. Questões ligadas a incentivos fiscais, localização e cadeia de suprimentos somam 29% das menções, demonstrando o efeito sistêmico das mudanças.
Para acompanhar regras, esclarecimentos oficiais e cronogramas, empresas têm recorrido a documentos divulgados pela Receita Federal, que centraliza instruções normativas e orientações sobre o novo IVA dual.
Carga tributária: projeções divididas
Entre as empresas que estudaram a reforma, 51% enxergam aumento da carga, antecipando repasse de preços ou compressão de margens. Para 19%, o efeito será neutro e 16% projetam alívio tributário, com possível ganho competitivo. Os 14% restantes ainda não têm conclusão ou não avaliaram o impacto.
Localização e cadeias de suprimentos em xeque
Das organizações que hoje usufruem de incentivos fiscais, 57% admitem revisar a localização geográfica ou ajustar a cadeia de suprimentos. Outras 27% manterão a base atual, porém pretendem redesenhar fluxos logísticos; 12% cogitam mudança completa de operações, combinando realocação e revisão da cadeia. O movimento reforça que a discussão tributária ultrapassa o setor fiscal e atinge estratégia, logística e pricing.
Inteligência Artificial ganha espaço, mas exige qualificação
Ferramentas de Inteligência Artificial (IA) ou IA Generativa já são realidade em 36% das áreas tributárias pesquisadas. Elas auxiliam na previsão de obrigações, simulação de cenários e otimização de créditos. Entretanto, a adoção tecnológica cria demanda por capital humano: 67% das empresas ampliaram treinamentos em novas tecnologias e 66% em legislação, enquanto 90% relatam dificuldade de contratar profissionais qualificados.
Renda e cenário internacional também pressionam decisões
Na tributação sobre a renda, 72% das empresas anteciparam a apuração de lucros de 2024 e 2025; dentro desse grupo, 84% já deliberaram sobre distribuição de resultados relativos a 2025. Em âmbito global, o Pillar 2 da OCDE segue no radar: 38% das companhias controladas por grupos estrangeiros ainda não examinaram as normas. Entre controladores brasileiros sujeitos às regras, cerca de um terço não concluiu a análise, elevando riscos de penalidades em um ambiente de coordenação internacional mais rígido.
Perfil da amostra: empresas de todos os portes e setores
O estudo ouviu indústrias de agronegócio, alimentos, TI, infraestrutura, mineração, varejo, serviços financeiros, entre outros. Quanto ao faturamento projetado para 2025, 23% têm receita até R$ 500 milhões; 30% entre R$ 500 milhões e R$ 2,5 bilhões; 19% entre R$ 2,5 bilhões e R$ 7,5 bilhões; e 28% superam R$ 7,5 bilhões. A representatividade nacional abrangeu as cinco regiões do país.
Custos de oportunidade e decisões estratégicas em meio à incerteza
A convivência de dois sistemas até 2032 impõe um custo de oportunidade elevado: adiar ajustes pode significar perda de competitividade, enquanto mudanças prematuras podem gerar gastos extras caso regras evoluam. Empresas que projetam aumento da carga tendem a rever margens ou repassar preços, mas isso pode reduzir participação de mercado. Já quem aposta em neutralidade ou queda tributária pode ganhar espaço se otimizar processos e tecnologia desde agora. O investimento acelerado em automação e IA revela que o ganho de eficiência fiscal se tornou diferencial estratégico — não apenas para cumprir prazos, mas para proteger rentabilidade em um cenário de margens pressionadas.
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