Copa 2026 dispara apostas online e acende alerta do Idec
26 de junho de 2026 — Uma projeção divulgada pela Softswiss indica que o volume global de apostas esportivas pode avançar 50% durante a Copa do Mundo. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) vê na escalada um terreno fértil para a manipulação emocional de torcedores, enquanto plataformas de monitoramento já mostram aumento expressivo dos gastos no Brasil.
Volume mundial pode chegar a US$ 52 bilhões
De acordo com a pesquisa conduzida pela Softswiss, fornecedora internacional de tecnologia para jogos on-line, as apostas que movimentaram cerca de US$ 35 bilhões na Copa anterior têm potencial para atingir US$ 52 bilhões em 2026. O diretor de Operações da empresa, Alexander Kamenetsky, credita o salto ao formato ampliado do torneio — de 32 para 48 seleções e de 64 para 104 partidas —, à consolidação de mercados regulamentados e às melhorias na experiência de apostas móveis.
Participação brasileira e termômetro financeiro
Estimativas do setor apontam que os apostadores do Brasil podem representar cerca de 10% do total global, fatia que tende a crescer caso a Seleção avance às fases decisivas. O Placar das Bets, ferramenta criada pela Klavi com dados do Open Finance, reforça a tendência: apenas entre 9 e 25 de junho, os brasileiros destinaram cerca de R$ 530,21 milhões às casas de apostas. O ticket médio nacional subiu de R$ 188, antes do pontapé inicial, para R$ 242 na quinta-feira (25).
Idec denuncia naturalização das apostas
Para o Idec, o crescimento projetado não é motivo de comemoração. O instituto argumenta que a legalização de 2018 e a regulamentação de 2023 não foram acompanhadas de barreiras eficazes à publicidade, o que contribui para a banalização dos riscos econômicos e psicológicos. A entidade defende que o Supremo Tribunal Federal declare inconstitucionais as normas que permitem jogos on-line, ou que, ao menos, estabeleça regras mais rígidas de proteção aos consumidores.
Ilusão de controle turbinada por grandes eventos
O professor Ahmed El Khatib, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que torneios de forte apelo emocional reduzem os freios racionais dos torcedores. “Cada partida gera centenas de combinações de apostas — de cartões a escanteios. Esse leque amplia exponencialmente o dinheiro em circulação”, observa. O docente lembra que a psicologia chama de ilusão de controle a confiança exagerada na capacidade de prever resultados, agravada pela cobertura midiática intensa.
Impacto sobre endividamento e comércio
Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostram que, de janeiro a março de 2023, a inadimplência associada a jogos e apostas retirou R$ 143 bilhões do varejo brasileiro. Para El Khatib, o fluxo financeiro das bets “é basicamente uma redistribuição de renda entre apostadores”, sem criar bens tangíveis. Ainda assim, ele reconhece que o setor gera receita tributária e patrocina mais da metade dos clubes de futebol do país.
Propostas para um ambiente de jogo responsável
Na avaliação de especialistas, proibir as apostas on-line já não é viável; o caminho passa por regulação robusta. Entre as sugestões estão:
- Campanhas permanentes de educação financeira para alertar sobre riscos.
- Limites de depósito e de perdas, evitando comportamento compulsivo.
- Uso de inteligência artificial para identificar usuários vulneráveis e suspender contas.
- Transparência sobre probabilidades reais de ganho em curto e médio prazos.
- Restrição a peças publicitárias que associem apostas a promessas de enriquecimento.
O Idec sustenta que a prevenção é menos custosa do que tratar consequências como o superendividamento e problemas de saúde mental. A Associação de Bets e Fantasy Sport (Abfs) foi procurada, mas não se manifestou até a publicação.
Riscos de curto prazo ao consumo interno
Do ponto de vista econômico, cada real desviado para apostas durante a Copa representa um custo de oportunidade: deixa de circular no varejo tradicional, afetando cadeias produtivas amplas. Se a participação brasileira se mantiver em 10% dos projetados US$ 52 bilhões, quase US$ 5,2 bilhões podem sair do orçamento familiar rumo às bets. Esse montante, convertido para o câmbio atual, supera a soma de vários programas sociais anuais, evidenciando o peso potencial sobre o consumo interno e a arrecadação de impostos sobre bens e serviços.
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