Empresas endividadas têm recorrido em massa à recuperação extrajudicial para renegociar passivos, revelou o Observatório Brasileiro da Recuperação Extrajudicial (Obre). O número de solicitações passou de 16 em 2021 para 84 em 2025; somente em 2026 já são 33 casos em andamento. A escalada, impulsionada pela Selic a 14,25% ao ano e por mudanças legais recentes, envolve montante superior a R$ 109 bilhões.
Crescimento exponencial em quatro anos
Os dados do Obre evidenciam um salto de 425% nos pedidos entre 2021 e 2025. A tendência permanece em 2026, com mais de trinta companhias buscando acordos diretos com credores antes que a situação evolua para a recuperação judicial. Esse formato ganhou força pela rapidez na homologação dos planos e menor desgaste operacional.
Juros elevados pressionam o caixa corporativo
Com a taxa básica em 14,25% ao ano, financiamentos contratados em épocas de crédito barato tornaram–se onerosos. A alta dos custos financeiros restringe o fluxo de capital de giro e dificulta o acesso a novos empréstimos, cenário que força as empresas a buscar alternativas menos burocráticas de ajuste financeiro.
Como funciona a recuperação extrajudicial
Ao contrário da recuperação judicial, o modelo extrajudicial permite negociar com grupos específicos de credores. Depois que a maioria prevista em lei aprova o plano, o acordo é homologado pela Justiça e torna-se vinculante para toda a classe envolvida. Entre as vantagens citadas estão a celeridade, redução de custos processuais e menor exposição negativa no mercado.
Lei nº 14.112/2020 incentiva adesão
Alterações introduzidas pela Lei nº 14.112/2020 flexibilizaram regras, permitindo que certos credores fiquem fora do acordo e tornando o procedimento mais adaptável. Essa modernização jurídica estimulou companhias de varejo, agronegócio, logística, mineração, indústria e saúde a optarem pelo mecanismo.
Setores e empresas na vitrine
Casos recentes envolvem nomes como Raízen, GPA, Tok&Stok, Casas Bahia e grupos hospitalares. A escolha pela via extrajudicial tem o objetivo de preservar operações, renegociar prazos e reduzir encargos antes que o endividamento comprometa a continuidade dos negócios.
Contadores e consultores na linha de frente
A identificação precoce de dificuldades de caixa, elaborada por profissionais de contabilidade e assessorias financeiras, torna-se vital. Eles analisam demonstrativos, projetam fluxo de caixa e desenham cenários de reestruturação, fornecendo aos gestores elementos para decidir entre a recuperação extrajudicial ou outros instrumentos de reorganização.
Análise: impacto financeiro e custo de oportunidade
O custo de oportunidade de não agir rapidamente pode ser elevado: juros em dois dígitos corroem margens e elevam a dívida total, enquanto a reputação da empresa se deteriora em processos judiciais mais longos. Ao optar pela recuperação extrajudicial, as companhias trocam um possível bloqueio de crédito por um acordo direcionado, que tende a preservar fornecedores estratégicos e a continuidade operacional. Em um ambiente de capital caro, adiar essa decisão significa converter receita futura em serviço de dívida, reduzindo a capacidade de investir e inovar.
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