Junho de 2026 marca o momento em que a Reforma Tributária deixa o campo das promessas e entra na realidade operacional das empresas brasileiras. A Emenda Constitucional 132, promulgada em dezembro de 2023, já substitui tributos como PIS, Cofins, ICMS, ISS e parte do IPI por CBS e IBS, enquanto o Imposto Seletivo passa a vigorar para produtos nocivos. Agora, debate-se menos a necessidade da mudança e mais o custo de implementá-la dentro do cronograma que vai até 2033.
Como chegamos aqui
Desde 2024, o governo federal e o Congresso trabalharam em leis complementares que detalham alíquotas, regras de crédito e funcionamento do Comitê Gestor do IBS. Entre 2024 e 2025, foram definidos mecanismos de transição destinados a manter a arrecadação estável enquanto os novos tributos ganham corpo. A fase atual, iniciada no começo de 2026, funciona como um período de testes: CBS e IBS aparecem nas obrigações fiscais, mas sua cobrança integral ainda não foi ativada.
De acordo com o cronograma oficial disponível no portal da Receita Federal, a transição será escalonada até 2033. Nesse intervalo, empresas precisam manter sistemas capazes de lidar simultaneamente com legislações antiga e nova, o que exige investimentos em tecnologia, treinamento de equipes e revisão de processos.
Primeira fase prática: ajustes e incertezas
O principal desafio identificado pelos contribuintes está na definição da carga tributária efetiva. Embora parâmetros provisórios tenham sido divulgados, o percentual final dependerá de arrecadação, benefícios setoriais e eventuais ajustes durante o período de convivência dupla entre tributos. Como resultado, decisões de precificação, planejamento de caixa e expansão de negócios seguem cercadas por margens significativas de dúvida.
Além disso, a simplificação prometida para o sistema futuro não se traduz em simplicidade imediata. A coexistência de notas fiscais antigas e novos layouts digitais amplia o trabalho de compliance. Sistemas ERPs precisam ser reconfigurados, cadastros revistos e relatórios adaptados para manter rastreabilidade de créditos, tudo isso enquanto o fluxo operacional não pode parar.
Setores mais pressionados
Segmentos intensivos em mão de obra, como serviços, tecnologia, educação, saúde privada e construção civil, demonstram preocupação com um possível aumento da tributação líquida. Essas atividades costumam gerar menos créditos tributários do que indústrias tradicionais, o que pode elevar seus custos mesmo dentro de um modelo concebido sob o princípio da neutralidade arrecadatória.
Economistas que defenderam a reforma apontam ganhos de competitividade no longo prazo, mas representantes desses setores alertam para efeitos regressivos no curto prazo. A falta de previsibilidade amplia o receio de que investimentos sejam adiados justamente no momento em que o país busca acelerar a produtividade.
Judicialização no horizonte
A transição complexa já acende sinal amarelo para tribunais. Um estudo do Superior Tribunal de Justiça (STJ) projeta crescimento de 35% no volume de processos tributários caso contribuintes e entes federativos passem a litigar sobre CBS e IBS. Novas regras, alíquotas variáveis e interpretações divergentes sobre créditos tendem a alimentar contenciosos, repetindo ciclos vistos em mudanças regulatórias anteriores.
Do ponto de vista institucional, especialistas enxergam risco de que a execução da reforma transfira ônus operacional ao contribuinte. Se confirmada, a escalada de litígios pode atrasar ainda mais a consolidação do modelo tributário, criando incertezas adicionais para planejamento de longo prazo.
Custo de oportunidade da transição prolongada
Com empresas destinando recursos a adequações sistêmicas e consultorias técnicas, há um custo de oportunidade pouco debatido: cada real gasto para cumprir exigências temporárias deixa de ser alocado em inovação, expansão produtiva ou qualificação de pessoas. Se a fase de convivência dupla permanecer até 2033, como previsto, o país pode enfrentar quase uma década de investimentos defensivos, voltados a evitar riscos fiscais em vez de gerar valor econômico direto. Esse cenário reforça a importância de ajustes regulatórios céleres e de comunicação governamental transparente, capazes de reduzir incertezas e liberar capital para atividades produtivas.
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